For my love in Heaven
_Mãe, mãe, a flor está no céu!
_Filho, que céu? Tens cada uma! As flores estão aqui na terra.
_Não, mãe! – teimou a criança num pranto. – Está nas nuvens!
_Vamos olhar para o céu os dois. – ordenou a mãe pacientemente. – Ali estão as nuvens, o céu, os pássaros que passaram agora, viste? As flores não crescem no céu assim como as nuvens não crescem na terra.
Terra-a-terra como sempre fora, ostentou a sua objetividade, esquecendo-se do ciclo da água, da imaginação e até do vento.
_Mãe, chega aqui. Olha! – pediu o filho apontando a mão para o lago bordeado de flores. – Vês a flor nas nuvens?
A mãe viu o reflexo do céu na água, seguiu a pequena mão completamente aberta do seu rebento e suspirou de alívio:
_Tens razão! Já percebi. Há flores que nascem no céu. São flores especiais como tu, meu amor.
A partir desse dia, prometeu a si própria deitar fora a lógica sempre que estivesse a conviver com o filho para que não entrassem em rota de colisão.
Não depende a felicidade do entendimento mútuo entre as pessoas?
Seria inevitável que as cores se confundissem. Se transformassem em preto e branco.
Se aniquilassem umas às outras para se aniquilar a alegria e a fantasia.
Seria inevitável acabar com os sorrisos, os risos e os beijos para que não pudéssemos mais sentir que a vida tem dessas coisas ou dessas visões surreais que nos permitem resistir (talvez apenas subsistir).
Submersos em falácias, deixemos que tudo continue assim.
Porque não?
Ou porque não olhamos para trás? Porque não olhamos a verdade? Por que razão temos tanto medo de sofrer? A dor não dói assim tanto se nos prepararmos para ela.
Queremos acreditar. Acreditemos.
Queremos duvidar. Duvidemos.
Nunca nos deixemos trair por essa ilusão de que a felicidade existe. Existe? Onde?
Que crianças! Que flores! Que mares! Que amores!
Não há nada! Absoluto que negamos a nós mesmos.
A realidade é a gota de água que cai sincronizada da torneira em som pendular irritante hipnótico.
A realidade é amanhã ser um dia diferente indefinido.
A realidade é morrermos aos poucos em cada minuto que passa com passos que não contamos.
A realidade é amanhã já não sermos. A realidade é não atirarmos areia aos olhos.
A realidade é a solidão de cada eu.
A realidade é não haver realidade além de nós.
Seria mesmo inevitável a ausência de cores. A partir dessa ausência todas as ausências fariam sentido, incluindo a nossa.
“On the first day of the year
My aim was so clear
I could see the line on the horizon
I got it all made
Brave, unafraid
On the first day, on the first day”
Não me falem com palavras feitas
De ti
Apenas palavras novas
inventadas
puras
serão permitidas para te escutar
Há seres que se inventam em cada minuto que passa
Outros há que permanecem em escuridão
Tu és dos primeiros
Daqueles que se envolvem na magia do acordar
Se despedem sem dizer adeus
E morrem com a dignidade da coragem
A lucidez de quem não crê em mais nada
À exceção do seu imenso amor
Um pássaro não finge a morte
E tu também não a soubeste fingir nem fintar
Não me digam palavras feitas de ti
Porque de ti apenas o indizível será escutado
Pasmei de angústia, esse caminho estreito que de tanto se estreitar nos comprime e asfixia.
No espelho, vejo o teu reflexo: uma sombra do que tu eras refletida em mim. Dentro de mim. Não te sei ver partir. E que ninguém espere que eu aprenda a ver-te partir.
Alguma vez nos lembramos da lua na transgressão do quotidiano? É quase sempre o sol ou a terra ou ainda o mar com trejeitos de tempestade.
Em momentos do avesso, busquemos a lua: a tranquilidade despojada e pura da morte que não existe.
Om mani padme hum
(Mother: the most beautiful word in the world)
oil on canvas
Julgo que partiste
Com a intenção de ver mais perto as estrelas.
De contrário
Por que escolherias a noite?
Aquela escuridão imensa
Em que nem eu sei
Se a lua te ofereceu a sua presença…
Ou se as lágrimas
Fizeram algum sentido.
Ou se a dor se instaurou.
Ou se o esquecimento
Que é a noite mais forte que a própria noite.
Mas o mundo dói.
E essa dor ajudar-me-á a partir,
Quando me apetecer ver as estrelas de outra maneira.
Quando me apetecer misturar com o cheiro do mar.
Ir ao encontro da terra húmida
Esse húmus de compaixão
Que sempre nos recebe de braços abertos
Como um sinal de perdão
Por não sabermos o que fazemos.
Na solidão dos nossos passos
carregamos a incerta certeza
de que somos.
Como se ser fosse
algo mágico poderoso.
Na solidão do nosso ego
carregamos ventos desejos.
Nuvens que se desfazem
tempos depois.
Na solidão do nosso destino
caminhamos envoltos num cristal
frágil transparente,
excluindo luzes e o reflexo da alma.
Pedimos
um rasto que reflita o nosso rosto
para nos olharmos,
nos sentirmos universais
eternos verdadeiros.
E esperamos que nunca seja tarde demais.