waiting for canvas

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Earth and dove
(Earth=acrylic on recycled paper)

Earth and dove

(Earth=acrylic on recycled paper)

E se os espelhos mentem?

E se os espelhos mentem?

A sonhar a luz além do silêncio
 
Entregaram-na em mãos envolta num lençol branco de neve aureolado de rendas.
Um filho assim sem a dor de parto? Um ser minúsculo a necessitar de cuidados urgentes. 
Além do silêncio que a habitava, havia a luz que nos pode conduzir ao amor ou ao abandono. É uma luz ambígua, sobretudo perigosa para quem olha o mundo com desencanto.  
Durante anos, esse filho cresceu para além de outras dores. Tornou-se no refúgio, no repouso do guerreiro, no conforto dos sentimentos que se querem agradáveis a fim de suster os medos, as angústias, as injustiças. E ficou.
Depois deste filho, a luz apagar-se-á. O silêncio será um rei sem trono, sem país para governar. A decadência será inevitável.
O final que se prevê ao longo desta história coloca-nos a pergunta se terá valido a pena sonhar além do silêncio para, mais tarde, repô-lo. Uma elipse feliz para uma prolepse trágica. 
Todavia, a narrativa mantém-se aberta.

A sonhar a luz além do silêncio

 

Entregaram-na em mãos envolta num lençol branco de neve aureolado de rendas.

Um filho assim sem a dor de parto? Um ser minúsculo a necessitar de cuidados urgentes.

Além do silêncio que a habitava, havia a luz que nos pode conduzir ao amor ou ao abandono. É uma luz ambígua, sobretudo perigosa para quem olha o mundo com desencanto.  

Durante anos, esse filho cresceu para além de outras dores. Tornou-se no refúgio, no repouso do guerreiro, no conforto dos sentimentos que se querem agradáveis a fim de suster os medos, as angústias, as injustiças. E ficou.

Depois deste filho, a luz apagar-se-á. O silêncio será um rei sem trono, sem país para governar. A decadência será inevitável.

O final que se prevê ao longo desta história coloca-nos a pergunta se terá valido a pena sonhar além do silêncio para, mais tarde, repô-lo. Uma elipse feliz para uma prolepse trágica.

Todavia, a narrativa mantém-se aberta.

Mr. Duck

Mr. Duck

Silently…
(pigmented ink and ecolines on canvas)

Silently…

(pigmented ink and ecolines on canvas)

Memorandum

Na vegetal lembrança dos dias

Existem sons tecidos a fios de ouro

Corpos solarengos

Macios

E cheiros a alecrim

Existem águas doces

Como cetim

Estendido ondulado pelo vento

Refúgios

Onde os olhos se esquecem de olhar

Para contemplar e inventar

Momentos de felicidade

Existes tu e eu

Sem sermos nós

O silêncio do abraço

Circunferência una completa total

Seremos felizes

Se não soubermos

Que a espiral do tempo

Em movimento contínuo

Nos torna a lembrança irreal

Seremos felizes

Se não soubermos

Que perdemos o pião da infância

E os dias

Como contas de um rosário que rezamos

Seremos felizes

Quando soubermos

Que ganhamos a sabedoria do saber

Para enfim colhermos a força

Que nos permite suportar o perder


(seríamos felizes se descesses do teu pedestal de cristal, me agarrasses as mãos e caminhasses comigo ao longo do mesmo caminho)

P.S. Solarengos, sim, no sentido de nobres, como uma casa imponente.

O grito do pavão

Caminhava com passos lentos num dos carreiros de pedra que formavam cicatrizes na relva do velho jardim.

O grito do pavão ecoou. Olhou à sua volta à procura de azul ou de uma explosão de cores. Apenas encontrou uma penugem presa nos arbustos rasteiros.

_ Sacana do bicho! Levou-me os pensamentos!

Se tivesse olhado para o céu, observaria uma bola azul e verde no cimo de uma árvore. Poderia ter reparado que os seus pensamentos estavam com essa bola de penas.

Mania de estar sempre com o nariz enfiado no chão! As coisas que se perdem!

Quanto aos pensamentos, perdera-os. Não lhe tinham sido roubados. Para que quer um pavão pensamentos? De nada valeria queixar-se ao polícia: pensamentos perdidos, perdidos para sempre.

(oil on wood)

Segunda poesia
Vivemos dentro da poesia sem alguma vez pormos em causa se estaríamos loucas. E, sim, fomos loucas de poesia, de cores, de sons, de ritmos.
Escrevemos notas à margem dos poemas numa marginalidade sentida como uma segunda poesia. Agradecemos aos poetas que nos ensinaram a essência da vida.
Rimos, chorámos, partilhámos. A felicidade habitava-nos sob pena de, mais tarde, a infelicidade se tornar a tragédia por comparação.
Vivemos a alegria oferecida pelas palavras de poetas que escreviam e cantavam. Vivemos dentro de sonhos, de livros, de rabiscos. Vivemos embrulhadas em folhas brancas, pardacentas, em capas de vinis e cassetes, em telas das mais variadas tonalidades. Deixámos passar ao lado os pedaços de drama que nos habitavam e teimavam em destruir tamanha espiral.
Fizemos um mundo à nossa imagem e semelhança sem nos apercebermos dos dias que se avizinhavam: dias estreitos sem espaço para o sonho.
Estará nas nossas mãos modificar estes dias?
(para a Misa)

Segunda poesia

Vivemos dentro da poesia sem alguma vez pormos em causa se estaríamos loucas. E, sim, fomos loucas de poesia, de cores, de sons, de ritmos.

Escrevemos notas à margem dos poemas numa marginalidade sentida como uma segunda poesia. Agradecemos aos poetas que nos ensinaram a essência da vida.

Rimos, chorámos, partilhámos. A felicidade habitava-nos sob pena de, mais tarde, a infelicidade se tornar a tragédia por comparação.

Vivemos a alegria oferecida pelas palavras de poetas que escreviam e cantavam. Vivemos dentro de sonhos, de livros, de rabiscos. Vivemos embrulhadas em folhas brancas, pardacentas, em capas de vinis e cassetes, em telas das mais variadas tonalidades. Deixámos passar ao lado os pedaços de drama que nos habitavam e teimavam em destruir tamanha espiral.

Fizemos um mundo à nossa imagem e semelhança sem nos apercebermos dos dias que se avizinhavam: dias estreitos sem espaço para o sonho.

Estará nas nossas mãos modificar estes dias?

(para a Misa)

Sinto saudade de acreditar. Sinto saudade dos dias de amanhã que nunca serão como previ e sonhei. Sinto saudade da música que nunca poderei ouvir. Sinto saudade de sentir algo mais do que os dias a passarem estupidamente sem sentido depressa como um comboio que nunca para. Sinto saudade de sair desta esfera viciada, saltar fora dos gritos e dos sorrisos forçados da mentira que se entranha. Sinto saudade da voz da minha mãe a contar-me a história da Alice no país das maravilhas. Do calor das noites de verão, dos risos da vida, da esperança.
Sinto saudade da mulher antiga que me ultrapassou e disse adeus para sempre.
Sinto demasiada saudade.

Sinto saudade de acreditar. Sinto saudade dos dias de amanhã que nunca serão como previ e sonhei. Sinto saudade da música que nunca poderei ouvir. Sinto saudade de sentir algo mais do que os dias a passarem estupidamente sem sentido depressa como um comboio que nunca para. Sinto saudade de sair desta esfera viciada, saltar fora dos gritos e dos sorrisos forçados da mentira que se entranha. Sinto saudade da voz da minha mãe a contar-me a história da Alice no país das maravilhas. Do calor das noites de verão, dos risos da vida, da esperança.

Sinto saudade da mulher antiga que me ultrapassou e disse adeus para sempre.

Sinto demasiada saudade.

Os relógios espelhavam-se nas paredes da casa. Tempos houve em que não os quisera. Odiara esse estranho objeto. Dizia que lhe provocava traumas chegar a horas, estar atrasado, o despertador cruel que lhe cortava os sonhos, o tiquetaquear no silêncio da noite. Odiara e pudera dar-se a esse luxo! Sim, não é qualquer um que se pode gabar de não precisar de um relógio para não ouvir do patrão ou ter uma falta injustificada. Tivera fama e cognomes próprios como “o atrasado”, “o pontualidade britânica” (às vezes, acontecia), “o despassarado”.
Agora que os dias amoleciam no tempo ditado pela velhice e pelo resguardo arbitrário, ouvia cada segundo desses dias contados.
Até ao último suspiro, odiaria relógios.

Os relógios espelhavam-se nas paredes da casa. Tempos houve em que não os quisera. Odiara esse estranho objeto. Dizia que lhe provocava traumas chegar a horas, estar atrasado, o despertador cruel que lhe cortava os sonhos, o tiquetaquear no silêncio da noite. Odiara e pudera dar-se a esse luxo! Sim, não é qualquer um que se pode gabar de não precisar de um relógio para não ouvir do patrão ou ter uma falta injustificada. Tivera fama e cognomes próprios como “o atrasado”, “o pontualidade britânica” (às vezes, acontecia), “o despassarado”.

Agora que os dias amoleciam no tempo ditado pela velhice e pelo resguardo arbitrário, ouvia cada segundo desses dias contados.

Até ao último suspiro, odiaria relógios.

Nessas manhãs acreditava no sol mesmo quando chovia. É fácil acreditar naquilo que se deseja.

Nessas manhãs acreditava no sol mesmo quando chovia. É fácil acreditar naquilo que se deseja.

The boy with the thorn in his side

The boy with the thorn in his side


A natureza tem geometrias. Falsas, bem sei, porém mais encantadoras do que as humanas.

A natureza tem geometrias. Falsas, bem sei, porém mais encantadoras do que as humanas.