waiting for canvas
A sonhar a luz além do silêncio
Entregaram-na em mãos envolta num lençol branco de neve aureolado de rendas.
Um filho assim sem a dor de parto? Um ser minúsculo a necessitar de cuidados urgentes.
Além do silêncio que a habitava, havia a luz que nos pode conduzir ao amor ou ao abandono. É uma luz ambígua, sobretudo perigosa para quem olha o mundo com desencanto.
Durante anos, esse filho cresceu para além de outras dores. Tornou-se no refúgio, no repouso do guerreiro, no conforto dos sentimentos que se querem agradáveis a fim de suster os medos, as angústias, as injustiças. E ficou.
Depois deste filho, a luz apagar-se-á. O silêncio será um rei sem trono, sem país para governar. A decadência será inevitável.
O final que se prevê ao longo desta história coloca-nos a pergunta se terá valido a pena sonhar além do silêncio para, mais tarde, repô-lo. Uma elipse feliz para uma prolepse trágica.
Todavia, a narrativa mantém-se aberta.
Na vegetal lembrança dos dias
Existem sons tecidos a fios de ouro
Corpos solarengos
Macios
E cheiros a alecrim
Existem águas doces
Como cetim
Estendido ondulado pelo vento
Refúgios
Onde os olhos se esquecem de olhar
Para contemplar e inventar
Momentos de felicidade
Existes tu e eu
Sem sermos nós
O silêncio do abraço
Circunferência una completa total
Seremos felizes
Se não soubermos
Que a espiral do tempo
Em movimento contínuo
Nos torna a lembrança irreal
Seremos felizes
Se não soubermos
Que perdemos o pião da infância
E os dias
Como contas de um rosário que rezamos
Seremos felizes
Quando soubermos
Que ganhamos a sabedoria do saber
Para enfim colhermos a força
Que nos permite suportar o perder
(seríamos felizes se descesses do teu pedestal de cristal, me agarrasses as mãos e caminhasses comigo ao longo do mesmo caminho)
P.S. Solarengos, sim, no sentido de nobres, como uma casa imponente.
O grito do pavão
Caminhava com passos lentos num dos carreiros de pedra que formavam cicatrizes na relva do velho jardim.
O grito do pavão ecoou. Olhou à sua volta à procura de azul ou de uma explosão de cores. Apenas encontrou uma penugem presa nos arbustos rasteiros.
_ Sacana do bicho! Levou-me os pensamentos!
Se tivesse olhado para o céu, observaria uma bola azul e verde no cimo de uma árvore. Poderia ter reparado que os seus pensamentos estavam com essa bola de penas.
Mania de estar sempre com o nariz enfiado no chão! As coisas que se perdem!
Quanto aos pensamentos, perdera-os. Não lhe tinham sido roubados. Para que quer um pavão pensamentos? De nada valeria queixar-se ao polícia: pensamentos perdidos, perdidos para sempre.
(oil on wood)
(Source: youcantwincharliebrown)
Segunda poesia
Vivemos dentro da poesia sem alguma vez pormos em causa se estaríamos loucas. E, sim, fomos loucas de poesia, de cores, de sons, de ritmos.
Escrevemos notas à margem dos poemas numa marginalidade sentida como uma segunda poesia. Agradecemos aos poetas que nos ensinaram a essência da vida.
Rimos, chorámos, partilhámos. A felicidade habitava-nos sob pena de, mais tarde, a infelicidade se tornar a tragédia por comparação.
Vivemos a alegria oferecida pelas palavras de poetas que escreviam e cantavam. Vivemos dentro de sonhos, de livros, de rabiscos. Vivemos embrulhadas em folhas brancas, pardacentas, em capas de vinis e cassetes, em telas das mais variadas tonalidades. Deixámos passar ao lado os pedaços de drama que nos habitavam e teimavam em destruir tamanha espiral.
Fizemos um mundo à nossa imagem e semelhança sem nos apercebermos dos dias que se avizinhavam: dias estreitos sem espaço para o sonho.
Estará nas nossas mãos modificar estes dias?
(para a Misa)
Sinto saudade de acreditar. Sinto saudade dos dias de amanhã que nunca serão como previ e sonhei. Sinto saudade da música que nunca poderei ouvir. Sinto saudade de sentir algo mais do que os dias a passarem estupidamente sem sentido depressa como um comboio que nunca para. Sinto saudade de sair desta esfera viciada, saltar fora dos gritos e dos sorrisos forçados da mentira que se entranha. Sinto saudade da voz da minha mãe a contar-me a história da Alice no país das maravilhas. Do calor das noites de verão, dos risos da vida, da esperança.
Sinto saudade da mulher antiga que me ultrapassou e disse adeus para sempre.
Sinto demasiada saudade.
Os relógios espelhavam-se nas paredes da casa. Tempos houve em que não os quisera. Odiara esse estranho objeto. Dizia que lhe provocava traumas chegar a horas, estar atrasado, o despertador cruel que lhe cortava os sonhos, o tiquetaquear no silêncio da noite. Odiara e pudera dar-se a esse luxo! Sim, não é qualquer um que se pode gabar de não precisar de um relógio para não ouvir do patrão ou ter uma falta injustificada. Tivera fama e cognomes próprios como “o atrasado”, “o pontualidade britânica” (às vezes, acontecia), “o despassarado”.
Agora que os dias amoleciam no tempo ditado pela velhice e pelo resguardo arbitrário, ouvia cada segundo desses dias contados.
Até ao último suspiro, odiaria relógios.
A natureza tem geometrias. Falsas, bem sei, porém mais encantadoras do que as humanas.